09 5 / 2012

Quem é SILVA?

CRÉDITO: Rodrigo Esper

Isto não é exatamente uma entrevista. Chame como quiser: de bate-papo, conversa, troca de e-mails descompromissada, perda de tempo. De qualquer coisa, menos entrevista.

Minha intenção ao mandar o primeiro e-mail para o capixaba Lúcio Souza, 23 anos - o cara por trás do SILVA, um projeto-de-um-homem-só que me chamou a atenção em 2011 - era apenas ter uma ideia de quem diabos ele era. O EP lançado em meados do ano passado foi bastante comentado em sites e blogs dedicados a música independente. Mas faltava saber algumas coisas sobre o dono do negócio. Quem ele era, de onde veio, o que ele fez até ganhar elogios de tanta gente boa.

Trocamos alguns e-mails em fevereiro e março, pouco depois d’ele ser confirmado como uma das atrações do Sónar SP (e antes dele entrar para a Slap). E maio, já próximo do festival, me pareceu ser o melhor momento para compilar esse papo e dividi-lo.

O primeiro show do SILVA em São Paulo acontece no sábado, 12 de maio (bela coincidência!), às 17h, no SónarHall. Desnecessário dizer que recomendo muito.

Sei que você estudou música desde cedo, mas poderia me contar desde que idade, exatamente? Por quais instrumentos você passou até notar essa predileção pelo violino?

Comecei a ser musicalizado aos dois anos. Meu primeiro instrumento foi a flauta, depois o violino, quando fiz seis anos, e logo depois o piano. Os outros instrumentos eu não estudei formalmente, só pegava informações com os amigos e tocava em casa mesmo. Iniciei por uma escolinha de música para crianças e depois na adolescência entrei na escola de música do Estado onde estudo até hoje.


Quais instrumentos você sabe tocar hoje?
Violino e piano são os instrumentos que eu estudei por mais tempo, mas me arrisco com a guitarra, violão, violoncelo. Vou tentando e quando não consigo peço ajuda a quem já sabe.

O que você ouvia quando era moleque, 12, 13 anos, em casa?
Como sou o filho caçula, ouvia muito o que meus irmãos ouviam, um pouco de Tom Jobim, Chico Buarque, Legião Urbana, bastante música brasileira mesmo. Também nessa época, um dos meus tios, que é pianista, me ensinou muita coisa sobre música. Ouvia bastante os discos da Martha Argerich e do Nelson Freire. Diria que foi uma mistura boa.

Com que idade você começou a se apresentar profissionalmente como músico? Lembra da primeira composição?
Na adolescência, com uns 15 anos. Tive minha fase de querer ser solista e tocar aqueles concertos difíceis pra violino, mas isso passou quando comecei a tocar nas bandas de amigos. Minha primeira composição aconteceu nessa época.

Como foi que, de músico com formação “clássica”, você passou a flertar com sons eletrônicos?
Acho que fiquei interessado nas aulas de música moderna da escola, mas só tomei gosto mesmo quando morei fora do Brasil.



Quais artistas de eletrônica te chamaram a atenção quando você tomou gosto por ela?
Comecei a conhecer mais quando morei na Irlanda, fui a alguns festivais de música e ouvi um dubstep pela primeira vez, ouvi umas coisas do Burial e fiquei muito impressionado. Depois voltei para o Brasil e fui muito influenciado pelo André Paste, que me mostrou algumas outras vertentes de música eletrônica, música de gueto e depois quando vim produzir com o (Lucas de) Paiva no Rio conheci coisas ainda mais modernas. O disco que mais gostei do ano passado foi o do Kuedo, acho que ouvi aquele disco muitas vezes.

Li algo sobre sua experiência no exterior, tocando em bandas em Dublin. Como foi? Quanto tempo ficou por lá?
Foi sim, eu fui pra Dublin para passar alguns meses e cheguei lá no auge da crise econômica. Conheci um baterista brasileiro que sabia de uma banda que estava a procura de um violinista e essa banda (Captain Magic) tocava na rua. Os caras eram bons músicos, cada um de um país diferente e todo dia nós levávamos os instrumentos para a Grafton Street e tocávamos por algumas horas. Vivíamos disso, tocávamos em alguns pubs da cidade e em festivais também. Acho que foi a melhor época da minha vida, no verão tocávamos quase todos os dias para uma praça cheia de pessoas sentadas ouvindo a música.

Quando o EP começou a ser gestado?
Em Dublin mesmo, quando voltava pra casa com várias idéias na cabeça. Pegava o computador e gravava sem muito recurso. Foi quando fiz A Visita, que acabou tendo bastante influência irlandesa.


Como foi que você encontrou o Lucas de Paiva? Como produtor, o que ele trouxe ao seu trabalho?

Eu voltei para o Brasil e uma demo com músicas minhas foi parar na mão de um produtor do Rio e esse produtor me apresentou ao Lucas. O Paiva me mostrou muita música boa e nova pra mim e me ajudou a não ter medo de arriscar. Ele co-produziu e mixou esse EP.

E o Matt Colton, que masterizou o disco, como veio parar na história?
O Paiva tinha ouvido falar dele quando estudou em Londres e resolvemos entrar em contato. Ele tem feito trabalhos muito bons e eu fiquei bem feliz com o resultado.

Uma das coisas mais curiosas que notei ao ler as resenhas sobre o EP foi a salada de referências e artistas que alguns críticos julgaram similares ao seu som, de Marcelo Camelo e Thiago Pethit (creio que pelo tom da sua voz) a Owen Pallet (violino…) e Washed Out. Como se tentassem classificar um som que é bastante diferente do pop que é feito no Brasil hoje. Como você encara isso? Você de fato ouve esses caras citados como similares?
Ouvi muito Los Hermanos quando estava no ensino médio e com certeza eles influenciaram o meu som. Desses que você citou, quem eu ouvi de uns tempos para cá e conheci bem o trabalho é o Owen Pallet. Fui a um show dele quando morava em Dublin e fiquei impressionado com tanto talento.

E o show no Sónar São Paulo? Quantas pessoas estão na banda e como andam os ensaios?
O line-up do festival é incrível, fiquei muito honrado com o convite. Seriam três músicos, mas vão acabar sendo quatro, para podermos fazer um som bem parecido com o do disco. Os ensaios estão indo bem, estou otimista e feliz com o resultado.

[Atualização 14/5/2012: Lúcio tocou acompanhado apenas de um baterista, uma “nova configuração” da banda que estreou ao vivo um dia antes do show no Sónar]